Andamento

Saturday, November 06, 2004

Não consigo!!!!! Não fales assim ao pe das minhas meninas...

MARIA
Vai chover. Hoje vai chover. Vai cair água na certa. E não será pouca. Quando eu começo com as minhas comichões no espirito, é chuva garantida. Que caia, se tem que cair que calha. Ao menos refresca as ruas, o ar, as casas, anda por aí um pó que até se arrepanha à garganta. (Quase que tropeça num carro da roupa) Aquele moço é que podia vir arrumar isto, não o entendo. Quando não é preciso é quando vem.. (para uma máquina) Eu não disse mal dele, por mim pode vir quando quiser, tanto se me dá como se me deu! Não preciso de ninguém. (aproxima-se da máquina mais pequena. Afaga-a.) Só de vocês. (Senta-se. Brinca com a tampa da máquina) Então, ainda achas que não te ligo nenhuma? Aqui cheia de trabalho e mesmo assim vim aqui dar-te um miminho. As tuas irmãs estão todas invejosas. Quando elas vieram para aqui as coisas eram muito mais difíceis e eu não lhes podia dar nenhum aconchego, nenhuma palavra mais doce. Era de manhã à noite, todos os dias, sábados, domingos e feriados. E mesmo assim já me tinham a mim, eu nem isso podia dizer.


MARIANA
(Aconchegando o seu filho) Nem sei porque é que agora reparei nesta mulher. Talvez seja o meu instinto. Ouvi-la a falar com as máquinas como se fossem as suas filhas e saber que te tenho aqui, aqui dentro, fez-me reparar nela. É o mínimo que posso, que podemos fazer, repararmos uns nos outros. Daqui de onde o vejo ao pé de ti o mundo é um lugar estranho.


MARIA
(Aproxima-se da máquina maior) Vou-te dizer uma coisa mas fica entre nós. Não quero que contes nada às tuas irmãs, está bem? Promete primeiro. Elas não iam entender. É uma coisa esquisita. Hoje acordei com suores frios. Ainda estou com as mãos a tremer. Aquilo foi um pesadelo, só pode ter sido. Que raio. Estava aqui. Aqui como estou agora com vocês. E de repente a porta abriu-se, ouviu-se um estrondo, havia uma luz, uma voz: “-O que podemos esperar de ti?”. Aquilo parecia-me a voz do meu pai, do vosso avô, mas era tão estranho, como é que podia parecer-se com a voz do meu pai se eu nunca o conheci. Eu pensei que se tinham enganado. Toda a gente me olha como se não houvesse nada a esperar de mim. “-O que podemos esperar de ti?”, aquela voz metia-me medo, um medo pavoroso. Eu só pensava em fugir, mas nos pesadelos não se pode fugir, quando pensamos nisso mais os pés se atam ao chão, parecia que ele me ía dizer para arrumar a trouxa e ir-me embora, que não andava cá a fazer nada, claro que ando, sr. Doutor, tive quase para dizer mas não disse, sabia lá se ele era doutor, ó engenheiro, eu sou uma pessoa humilde, acordo todos os dias em sendo seis e meia da manhã e há onze e meia já estou a arranjar as coisas para ir dormir, faço primeiro um chá de cidreira, sinto-me melhor, se tenho como um biscoito, se não tenho não como, por mim está tudo bem.

ANTÓNIO
Não consigo....não consigo contar....(anda de um lado para o outro arrumando os carros. É violento, tem uma grande tensão dentro dele. Maria está incomodada) Não consigo....Não consigo....

MARIA
Não fales assim ao pé das minhas meninas...elas não gostam...e eu também não...olha, olha a Alice já está a chorar...

ANTÓNIO
Queria tanto contar-lhes...

MARIA
O mais importante é estarmos bem. Nós já sabemos que não vivemos no melhor dos mundos, mas nada nos impede que dentro da nossa casa possamos ter paz. Eu também quero paz, António. Vai, vai-te embora. (António sai)

ALEXANDRA
Era muitas vezes assim. Ela mandava-o embora e ele obedecia-lhe com exactidão. Era muitas vezes assim. Só ela o sabia aquietar, apaziguar, devolver-lhe a mansidão de que ele, originariamente, também tinha sido feito. Ela dizia-lhe:

MARIA
Não te esqueças que logo à noite tenho bolinhos.
ALEXANDRA
E ele esquecia de imediato uma palavra mais ríspida, mais azeda. Não tinham grande conversa um com o outro mas também nunca ninguém os ouviu a desconversar.

MARIA
(Respondendo à máquina maior) Não fui nada muito ríspida, sabes lá tu o que é ser ríspida, gaiata! O António é uma boa alma mas não sabe medir-se. (Séria) Não tem nada a ver. O facto de eu estar nervosa não tem nada a ver. O que me aconteceu....o que me aconteceu...Não quero falar nisso. Mas também, te digo, se este pesadelo apareceu a toda a gente como disse que ia fazer, pior do que eu está o António. O que é que se pode esperar de um pobre coitado como ele?

(Aparece António)

ANTÓNIO
Não consigo...não consigo contar uma história...

MARIA
Não vais começar tudo de novo, pois não?!

ANTÓNIO
Eu queria...

MARIA
Também eu queria...também eu queria muita coisa... (António levanta-se para ir embora) Vais embora?

ANTÓNIO
Eu não consigo...

MARIA
Tu não conseguiste. Mas podes ficar. Quem vai comer os meus bolinhos? Elas gostam de te ver a comer bolinhos. A Alice até diz que tu mostras tudo o que tens lá dentro, és muito sincero.

ANTÓNIO
A Alice?

MARIA
A Alice gosta muito de ti. Todas elas gostam mas com a Alice é devoção... (vai-lhe buscar um banco, António senta-se ao pé da Alice. Maria vai para a zona dos ferros, António começa a assobiar, trauteando uma música para a Alice. Maria fala lá do fundo) Que canção, é essa, rapaz? (António não responde, continua a cantar. Maria aproxima-se da entrada da sala das máquinas) Ela nunca teve um pai verdadeiro. De todas elas é a que mais sente isso. Que conversa é esta? Ai que tontaria, vamos mas é trabalhar...a culpa é tua, vens para aqui com essas coisas que tiras dos teus livros...não sei como é que ainda tens olhos, rapaz...(Para) Elas gostam de te ouvir contar histórias. Fica. Daqui a nada os bolinhos estão quentinhos, a estalar...As pequenas gostam tanto de te ver a mastigar, rapaz.

ANTÓNIO
Não gosto que me chame rapaz. Sou um homem.

MARIA
E és um bonito homem. Fazes-me falar coisas doces, como estas. Eu que nunca fui doce nem soube o que isso era.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home