Andamento

Saturday, November 06, 2004

O seu tempo está a esgotar-se...

Não sabia.
Nunca soube. Se soubesse que iria ser assim teria pensado duas vezes.
Tudo começou há um ano atrás.
Era uma mulher normal, com uma vida normal, recheada das coisas a que normalmente uma mulher tem direito.
Os primeiros sinais manifestaram-se sem deixarem antever o buraco escuro onde eu iria tropeçar: as ideias começaram a esvair-se no primeiro fôlego, a motivação contida em mim não encontrava objecto, os meus gestos não alcançavam a distância certa, não articulava as palavras que queria nem as colocava no lugar certo da frase.
Algo se passava.
E estava a tomar conta de mim.
E a enlouquecer-me.
Foi então que o procurei.
Talvez não o tenha verdadeiramente procurado, mas é assim que eu sinto que as coisas se passaram. Na forma e na maneira como passei a viver a minha vida. Nessa estranha pulsão para resgatar o desperdício que tinha sido a vida daqueles que me antecederam.
Era como se os meus gestos, os meus pensamentos, os meus actos, estivessem todos marcados por esse desígnio. Nunca fui muito dada nem ao esoterismo nem à religiosidade. Pelo contrário, se havia algo que me podiam apontar era esse apego ao chão firme debaixo dos meus passos.
O que eu sentia era que temos de fazer contas com esta vida que levamos. Que tem de haver contrapartidas para a vida. Para este impulso de ir de um ponto ao outro, sendo que ao primeiro chamamos passado e ao segundo, futuro. Eu não precisei de encontrar-me face a face com ele para perceber que não é por acaso que vivemos a vida que levamos. E que nem será por fortuito acto que a resgataremos.

Num lugar onde sabia que todas as tardes ele iria ver o deambular errante das pessoas, uma esplanada numa zona movimentada da cidade. Do fundo da rua situei-o, estava sentado debaixo de um chapéu-de-sol às riscas que travava os raios a pique; aproximei-me pela sua retaguarda, preparando-me psicologicamente para a abordagem. Como se estivesse à minha espera, indicou-me a cadeira à sua frente. Sentei-me algo intimidada e com o nervoso comecei logo a falar muito depressa:
“O que me trouxe aqui...” – Ele interrompeu-me, dando-me razão.
“- Há quantas gerações os membros da sua família ocupam cargos de exposição pública? Quantos viveram amores intensos? Quantos têm histórias empolgantes para contar? E quantos se esgotam nos próprios conhecimentos?”
Só consegui experimentar um ar de incredulidade. Como é que ele me adivinhou a árvore genealógica em 5 minutos? Não sei.
“Pelos meus cálculos, o seu tempo está a esgotar-se.”
Perguntei-lhe prontamente se ia morrer. “Não vai morrer, mas sentirá a vida como uma morte.” “Como uma morte”, respondi eu apavorada. “Como se estivesse ferida de morte”, disse ele. Propôs-me um acordo.
Retirou um documento, com as pontas a desfazerem-se, de uma pasta esgaçada de cabedal. Colocou-mo à frente:
“Contrato para resgatar o tempo que é seu por direito. Deverá andar pela vida de cabeça descoberta e ser testemunha e parte dessa responsabilidade de cada um viver do melhor modo o tempo que lhe é dado.”
Não o olhei. Não se deve olhá-lo. Ouvi-lo é possível e por vezes, dizem os próprios anjos, é desejável. Olhá-lo não. Olhá-lo é estar muito perto do fogo e não há coisa mais inflamável que a humana condição. Não o olhei. Ele estendeu-me a mão e lá dentro tinha uma ampulheta que me entregou. Disse:
“- Quando à sua passagem, e por causa dela, os seus semelhantes deixarem de desperdiçar a vida que têm para viver, esse tempo entrará directamente na sua conta corrente.” Estendeu-me uma caneta. Sem pensar duas vezes, rabisquei o papel. Ele olhou para o relógio, vestiu aquele ar de coelho da Alice, sempre atrasado para chegar a algum lugar evaporou-se, não no ar, mas depois de ter
contornado a esquina.

Laura

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