Andamento

Saturday, November 06, 2004

Se eu pudesse pintar o guarda-rios...

Se eu pudesse, se eu pudesse, se que pudesse pintar livremente o guarda-rios... Se eu pudesse pintar livremente o guarda-rios, passarinho que parece só azul se o vemos de cima, ele voando sobre os ribeiros… mas preciso dele tal qual… é como pintar a lua mas não acredito que ela mesmo que convidada, ficasse por muito tempo dentro da gaiola. Às vezes, o que faço é vê-la, assim, inteira! A pequena ave, tenho a impressão que as patas são vermelhas, não tenho a certeza, vou ter de esperar...(Silêncio)

Criticam-me por viver sozinha com as tintas e os pincéis. Não tenho técnica, não sei como o faço, só sei que gosto da cor das asas que pinto... Sei que é perigoso estar aqui à espera que o guarda-rios entre na gaiola, mas já se percebeu que eu só a quero para que a minha atenção seja outra, muito diferente e capaz de nunca mais esquecer o rasgo de cores que é o movimento dum pássaro, ele entra, olho-o e depois ele sai…(silêncio)

É perigoso porque as pessoas denunciam quem anda assim com gaiolas. Um dia, chegaram mesmo a bater-me mas à gaiola não fizeram nada. Eu tinha acabado de ver uma escrevedeira, ouvi umas vozes…uns homens chegaram e umas mulheres também, perguntaram-me o que estava eu a fazer ali. E eu disse “Não sei!” e realmente não sabia! O guarda-rios entra na gaiola, olho para ele, deixo que as suas cores penetrem nos meus dedos, ele vai-se e é tudo… fiquei a olhar para eles à procura de alguma palavras que viesse em meu auxílio explicar-lhes o porquê de eu estar ali mas nenhuma palavra veio, tiraram-me a gaiola…

Então uma mulher perguntou-me o que estava a ver e eu disse que uma escrevedeira. O que fui eu dizer! Que eu sabia muito bem que só de olhá-los, aos pássaros, podia fazer com que desaparecessem?

O que esperam de mim? O que podem esperar de mim? Apenas podem esperar que eu dê a minha vida para pintar, para ter sempre junto de mim a beleza dos pássaros. Eles que dão cor, movimento e musica à natureza, a este mundo…
E só quando conseguir pintar o guarda-rios me poderão fazer desistir de viver aqui, só, com os pincéis…É por ele que vim para aqui e é por ele que ainda aqui estou…(silêncio)

Ficaram com o meu nome, que me importa o nome? Deram-me a gaiola, os dedos fiquei com eles magoados, foi com uma varinha que me bateram, eles já sabiam muito bem que eu pintava senão porque escolheram os dedos? Avisaram-me que podiam fazer-me pior, e fizeram, a verdade é que fizeram...

Não esqueci o que me disseram, mesmo assim voltei ao rio… (silêncio) cá estou de novo…se o guarda-rios passar há-de concerteza querer conhecer-me…eu não desisti, como podia eu desistir? Hei-de preparar muito bem o azul das asas porque sei que é a cor que me está nos dedos e espero conhecer-lhe o laranja vivo do peito…

Disseram-me para não voltar… Mas o que podem esperar de mim? Apenas podem esperar que eu dê a minha vida para pintar, para ter sempre junto de mim a beleza dos pássaros. Eles que dão cor, movimento e musica à natureza, a este mundo…

Pintora

1 Comments:

  • Uma informação importante: este texto é do Abel Neves, de um dos textos/cenas/fragmentos da sua peça "Além as Estrelas São a Nossa Casa", editado pela Cotovia. Foi trabalhado pela Andreia, que procedeu a alguns cortes no sentido de o adaptar ao seu trabalho de actriz.

    By Blogger JPN, at 5:32 AM  

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