Andamento

Saturday, December 18, 2004

E assim acabou um ciclo...

Três dias de espectaculo, cada um muito diferente do outro. Quarta. Quarta foi o regresso, o abrir do baú, o relembrar de tantos momentos vividos em Julho. Uma estreia que não foi estreia. Já não sentimos a mesma ansiedade, o mesmo nervosismo. Passo a passo fomo-nos envolvendo com o público, deixamos a nossa identidade ir embora e procuravamos a personagem, pois só ela é o sucesso da peça. No fim, confesso que fiquei um pouco vazia. Aquele orgulho que senti em Julho não era o mesmo. Parecia-me que o "Que esperás de nós?" já não fazia sentido. Faltava algo... Quinta. Quinta foi um belo dia. A energia voltou, a alegria, a vontade de triunfar e de levar a nossa mensagem ao público. Estavamos cada vez mais dentro do espírito. E sexta, sexta foi a glória. Sendo o último dia tinhamos de dar tudo o que tinhamos. Tinhamos de ser perfeitos para que fosse essa a lembrança a permanecer após tudo acabar. Eu na minha escuridão era apenas uma pintora que gostava de pintar pássaros, não a Andreia. Um amigo disse-me que parecia que as palavras me vinham directamente do coração. Vieram realmente do coração da minha personagem, porque era ela a única coisa que quem ali estava podia esperar de mim. O facto de termos tido um número de espectadores semelhante a Julho fez com que nos sentissemos mais aconchegados, muito felizes por podermos compartilhar este fechar de um ciclo com eles. E depois o fim. A música do Filie acompanhado pela Rita e as lágrimas de alguns de nós a cairem. A cairem na altura e a cairem agora... Foi maravilhoso voltar a fazer a peça. Apesar de não estar dentro do fantástico, foi melhor. Foi um espectáculo não tão bom visulamente mas mais rico, as personagens ganharam uma outra força. Foi um recordar do espectaculo de Julho, um recordar dos ensaios e o recordar do primeiro dia em que falamos com o Joaquim, o primeiro dia do Andamento. Este grupo deu-me realmente muitas coisas, mas a principal, a que eu mais estimo e mais me orgulho, são as amizades que se criaram. E é por este motivo que ontem me doeu tanto ter terminado. Sei que não te perderei ISABEL, sei que estarás sempre aqui perto de mim, de nós, todos os dias... não é uma partida da minha vida, mas foi a partida de um pedaço de nós, foi um ciclo em que nos fomos unindo, conhecendo. Nunca te vi tão nervosa para o espectáculo, como ontem. Era o teu último dia. Será? Não sei. Por agora é. Apesar de tudo ter sido tão bom, de estar novamente preenchida, não estava capaz de ir festejar como da primeira vez. Comemorar o sucesso do "Que esperar de nós?"...já o tinha feito. O que tinha para comemorar ontem? A partida de alguém, o fim deste ciclo, a nostalgia que me ficou? Foi o fim!!! Quando gosto de algo não consigo comemorar o seu fim!
Voltei hoje àqueles espaços. Em cada espaço um excerto dos textos afluia ao meu pensamento. Em cada canto, o relembrar de tantos momentos vividos. Apesar do cansaço que se apodera do meu corpo, sentia-me com energia suficiente para voltar a fazer. Como gostaria de ter feito hoje uma nova noite de espectáculo... Depois fui com a Mara à sala psicoactiva (a bela da amarela) arrumar a "tralha" do espectáculo. Entre tantas outras coisas estava uma barriga de grávida, uma barriga que nunca mais será usada, porque a sua portadora deu à luz. Deixou-nos o seu rebento para nós tomarmos conta...
Nunca pensei que pudesse doer tanto no meu coração fechar aquela caixa, escrever a data do seu fecho e encerrar a porta da sala. Encerrei um bocado de mim lá dentro com a esperança de um dia o voltar a recuperar, o dia em que voltarmos a abrir a caixa. Espero que em breve!
Andreia