Andamento

Tuesday, November 30, 2004

O amor é tão improvável aos vinte anos...

como aos trinta, aos quarenta,

concluí eu ontem nas horas finais do ensaio, enquanto esperávamos por mais uma tentativa de colocar o projector a funcionar. O tema era, entre ais, suspiros e gestos de bailarina de uma das actrizes, o amor.

Não poderia ter havido final mais perfeito para o ensaio de ontem, lembro-me de ter pensado. Sem saber que para mim seria um falso final já que prolongaria o desfecho até ao 2047, visto em sessão tardia. Num anfiteatro, inicialmente espalhadas pelo espaço nos locais correspondentes às marcações que tinham atribuído aos seus personagens, começaram a surgir as vozes dos vinte anos abertos sobre os baldios do amor, do namoro, da experiência. Estavam todas tão entretidas a espelharem-se na conversa que nem repararam no meu embevecimento. É um privilégio poder estar ali, assim, sem impedir o fluir tranquilo desta camaradagem com que se vão emaranhando nos nós que atarão as suas vidas. Já me tinha apercebido disso comigo mesmo: as nossas vidas decidem-se tantas e tantas vezes quando não sabemos, quando não podemos saber, a força decisória dos nossos gestos.

Falaram dos príncipes encantados, dos homens perfeitos, da possibilidade de os encontrar. A certa altura viraram-se para mim. Queriam saber como era vinte anos depois. Fui o mais sincero que pude. Estava num cadeirão de pele, quando as vi a saltitarem pelas histórias dos seus dias pressenti que também me chegaria a mim, tinha-me posto o mais confortável que pude. Confessei-lhes que, muito antes pelo contrário, nunca deixamos esse tema evaporar-se das nossas vidas. Aliás, e já nem sei se o disse se o pensei, toda a nossa vida que vale a pena um dia contar é aquela que é vivida na preparação desse encontro com o amor.

Mas ainda procura a mulher perfeita?, perguntou uma, espantada pela durabilidade desta ilusão. Responder a esta pergunta parece mais fácil do que é. Num relance entrevemos toda a nossa vida que não foi, que falhou, que fracassou e essa é, muitas vezes, toda a nossa vida. Defendi-me o melhor que pude, que sim, com uma pequena diferença: com o tempo passamos a ter na linha do horizonte mais a relação perfeita do que a mulher ou o homem perfeitos.

A nossa moça-com-o-coração-aos-saltos não estava contente. Ela aguentaria ainda um pouco mais esta trepidação cardíaca mas precisava de saber que não seria para sempre e até, que iria deixar de o ser com o tempo. Insistiu:
- Joaquim, esta coisa de uma pessoa se entregar assim tanto a esta paixão é coisa da idade, não é? Com o passar do tempos serei mais racional, menos impulsiva, não é?
Respondi-lhe:
- Provavelmente não. Agora é que toda tu és razão e discurso.Todo o viver é esse trabalho de nos entregarmos cada vez mais e melhor.

Talvez não tenha sido totalmente honesto, mas fui verdadeiro e isso permitiu-me sair em alta comigo mesmo. O que, tendo em conta o adiantado da hora e da minha idade, é piedoso fim.



[Publicado também aqui]

Saturday, November 06, 2004

Novos projectos

"Que esperar de nós?" foi o nosso primeiro trabalho e que pretendemos voltar a repetir.
No entanto, queremos mais do que dinamizar o espaço escolar, queremos animar as pessoas, estudar um pouco as suas problemáticas, queremos trabalhar com a comunidade. Apesar de ainda estar dentro da casca, já temos um embrião, o desejo de ir a lares, perceber quem são os idosos, como vivem, como podemos ajudá-los.
Somos jovens, não pensamos que um dia iremos envelhecer. Esse futuro parece-nos tão longínquo... E os idosos pensam no tempo em que eram novos e não pensavam na velhice. Duas gerações separadas pelo tempo, cada geração com uma noção de tempo diferente... É um pouco nisto que pretendemos trabalhar este ano lectivo.
Para além disto temos o convite da COENEE para fazermos animação de rua em Maio de 2005 no XXVI Encontro Nacional de Estudantes de Enfermagem a realizar-se em monte Gordo e ainda o pedido de participação nas III Jornadas de Enfermagem da ESECGLx em Março 2005.

Muito trabalho?! Não! Muitos futuros momentos de prazer...

Que esperar de nós? - voltamos a apresentar

"Que esperar de nós?", a 22 e 23 de Julho de 2004 foi a rampa de lançamento deste grupo.

As personagens foram respectivamente:
  • Filipa Domingues - Méan
  • Mara Campos - Maria Alexandra
  • Ana Isabel Silva - Mariana
  • Ana Sara Daniel - Laura
  • Gisélia Machado - Aterrorizado
  • Ricardo Rodrigues - António
  • Carla Sanches - Maria
  • Andreia Espírito Santo - Pintora

O nosso encenador Joaquim Paulo Nogueira

Muito temos de agradecer ao Filipe e á Rita pela colaboração no nosso espectáculo, à Alfasom, a todos os membros da Escola superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian de Lisboa e á respectiva Associação de Estudantes.

Antes do espectáculo estavamos completamente absorvidos pela adrenalina da preparação do espectáculo, ansiedade perante a estreia e pelo medo de todas as expectativas que tinham sido depositadas sobre nós não serem alcançadas. Dia 22, dia de estreia. A felicidade inundou-nos. Nunca pensámos que pudesse fosse tão fantástico representar, invergar uma personagem e sê-la verdadeiramente mesmo perante um grande público, principalmente de pessoas conhecidas, pessoas que conhecem o nosso verdadeiro eu.

E é novamente nestes textos, neste espaço que vamos pegar para mais uma vez dinamizarmos o espaço escolar e deixar no ar a questão que atravessa tão diferentes realidades, "Que esperar de nós?", por cada um de nós, pelas nossas vivências erá concerteza uma resposta diferente. Está previsto para os dias 2, 3 e 4 Dezembro 2004.

Um só destino

Há quanto tempo foi
Que não me sentia assim?
Talvez já nem me lembre bem
De como era quando me perdi...

Enquanto o Sol brilhar assim não vou
Deixar de cantar no tom
Não é preciso ver p'ra crer que "nós somos mais!!"

Somos um mundo e queremos dar
Vencer e alcançar
Um só destino, a geração
Que vem dar que falar!!

Ontem deixei-me só
E hje acordo junto a ti e
Nós vamos viver o dia e o amanhã e tudo vai ser bom demais
Não vou largar
Não, não eu não vou deixar

E de entre tudo o que nós vamos ser
A certeza de não perder
Está no que temos hoje, agora, sempre e aqui

Temos o dia... temos o mundo...
Temos a vida... um só destino...

O que esperar de ti?... O que esperar de nós?...

Cantar, dançar até ser dia
Cantar, dançar na maior folia
Cantar, dançar viver alegria
Cantar, dançar até ser dia

Música e letra de Filipe Henriques
Colaboração de Rita Neto

Se eu pudesse pintar o guarda-rios...

Se eu pudesse, se eu pudesse, se que pudesse pintar livremente o guarda-rios... Se eu pudesse pintar livremente o guarda-rios, passarinho que parece só azul se o vemos de cima, ele voando sobre os ribeiros… mas preciso dele tal qual… é como pintar a lua mas não acredito que ela mesmo que convidada, ficasse por muito tempo dentro da gaiola. Às vezes, o que faço é vê-la, assim, inteira! A pequena ave, tenho a impressão que as patas são vermelhas, não tenho a certeza, vou ter de esperar...(Silêncio)

Criticam-me por viver sozinha com as tintas e os pincéis. Não tenho técnica, não sei como o faço, só sei que gosto da cor das asas que pinto... Sei que é perigoso estar aqui à espera que o guarda-rios entre na gaiola, mas já se percebeu que eu só a quero para que a minha atenção seja outra, muito diferente e capaz de nunca mais esquecer o rasgo de cores que é o movimento dum pássaro, ele entra, olho-o e depois ele sai…(silêncio)

É perigoso porque as pessoas denunciam quem anda assim com gaiolas. Um dia, chegaram mesmo a bater-me mas à gaiola não fizeram nada. Eu tinha acabado de ver uma escrevedeira, ouvi umas vozes…uns homens chegaram e umas mulheres também, perguntaram-me o que estava eu a fazer ali. E eu disse “Não sei!” e realmente não sabia! O guarda-rios entra na gaiola, olho para ele, deixo que as suas cores penetrem nos meus dedos, ele vai-se e é tudo… fiquei a olhar para eles à procura de alguma palavras que viesse em meu auxílio explicar-lhes o porquê de eu estar ali mas nenhuma palavra veio, tiraram-me a gaiola…

Então uma mulher perguntou-me o que estava a ver e eu disse que uma escrevedeira. O que fui eu dizer! Que eu sabia muito bem que só de olhá-los, aos pássaros, podia fazer com que desaparecessem?

O que esperam de mim? O que podem esperar de mim? Apenas podem esperar que eu dê a minha vida para pintar, para ter sempre junto de mim a beleza dos pássaros. Eles que dão cor, movimento e musica à natureza, a este mundo…
E só quando conseguir pintar o guarda-rios me poderão fazer desistir de viver aqui, só, com os pincéis…É por ele que vim para aqui e é por ele que ainda aqui estou…(silêncio)

Ficaram com o meu nome, que me importa o nome? Deram-me a gaiola, os dedos fiquei com eles magoados, foi com uma varinha que me bateram, eles já sabiam muito bem que eu pintava senão porque escolheram os dedos? Avisaram-me que podiam fazer-me pior, e fizeram, a verdade é que fizeram...

Não esqueci o que me disseram, mesmo assim voltei ao rio… (silêncio) cá estou de novo…se o guarda-rios passar há-de concerteza querer conhecer-me…eu não desisti, como podia eu desistir? Hei-de preparar muito bem o azul das asas porque sei que é a cor que me está nos dedos e espero conhecer-lhe o laranja vivo do peito…

Disseram-me para não voltar… Mas o que podem esperar de mim? Apenas podem esperar que eu dê a minha vida para pintar, para ter sempre junto de mim a beleza dos pássaros. Eles que dão cor, movimento e musica à natureza, a este mundo…

Pintora

Não consigo!!!!! Não fales assim ao pe das minhas meninas...

MARIA
Vai chover. Hoje vai chover. Vai cair água na certa. E não será pouca. Quando eu começo com as minhas comichões no espirito, é chuva garantida. Que caia, se tem que cair que calha. Ao menos refresca as ruas, o ar, as casas, anda por aí um pó que até se arrepanha à garganta. (Quase que tropeça num carro da roupa) Aquele moço é que podia vir arrumar isto, não o entendo. Quando não é preciso é quando vem.. (para uma máquina) Eu não disse mal dele, por mim pode vir quando quiser, tanto se me dá como se me deu! Não preciso de ninguém. (aproxima-se da máquina mais pequena. Afaga-a.) Só de vocês. (Senta-se. Brinca com a tampa da máquina) Então, ainda achas que não te ligo nenhuma? Aqui cheia de trabalho e mesmo assim vim aqui dar-te um miminho. As tuas irmãs estão todas invejosas. Quando elas vieram para aqui as coisas eram muito mais difíceis e eu não lhes podia dar nenhum aconchego, nenhuma palavra mais doce. Era de manhã à noite, todos os dias, sábados, domingos e feriados. E mesmo assim já me tinham a mim, eu nem isso podia dizer.


MARIANA
(Aconchegando o seu filho) Nem sei porque é que agora reparei nesta mulher. Talvez seja o meu instinto. Ouvi-la a falar com as máquinas como se fossem as suas filhas e saber que te tenho aqui, aqui dentro, fez-me reparar nela. É o mínimo que posso, que podemos fazer, repararmos uns nos outros. Daqui de onde o vejo ao pé de ti o mundo é um lugar estranho.


MARIA
(Aproxima-se da máquina maior) Vou-te dizer uma coisa mas fica entre nós. Não quero que contes nada às tuas irmãs, está bem? Promete primeiro. Elas não iam entender. É uma coisa esquisita. Hoje acordei com suores frios. Ainda estou com as mãos a tremer. Aquilo foi um pesadelo, só pode ter sido. Que raio. Estava aqui. Aqui como estou agora com vocês. E de repente a porta abriu-se, ouviu-se um estrondo, havia uma luz, uma voz: “-O que podemos esperar de ti?”. Aquilo parecia-me a voz do meu pai, do vosso avô, mas era tão estranho, como é que podia parecer-se com a voz do meu pai se eu nunca o conheci. Eu pensei que se tinham enganado. Toda a gente me olha como se não houvesse nada a esperar de mim. “-O que podemos esperar de ti?”, aquela voz metia-me medo, um medo pavoroso. Eu só pensava em fugir, mas nos pesadelos não se pode fugir, quando pensamos nisso mais os pés se atam ao chão, parecia que ele me ía dizer para arrumar a trouxa e ir-me embora, que não andava cá a fazer nada, claro que ando, sr. Doutor, tive quase para dizer mas não disse, sabia lá se ele era doutor, ó engenheiro, eu sou uma pessoa humilde, acordo todos os dias em sendo seis e meia da manhã e há onze e meia já estou a arranjar as coisas para ir dormir, faço primeiro um chá de cidreira, sinto-me melhor, se tenho como um biscoito, se não tenho não como, por mim está tudo bem.

ANTÓNIO
Não consigo....não consigo contar....(anda de um lado para o outro arrumando os carros. É violento, tem uma grande tensão dentro dele. Maria está incomodada) Não consigo....Não consigo....

MARIA
Não fales assim ao pé das minhas meninas...elas não gostam...e eu também não...olha, olha a Alice já está a chorar...

ANTÓNIO
Queria tanto contar-lhes...

MARIA
O mais importante é estarmos bem. Nós já sabemos que não vivemos no melhor dos mundos, mas nada nos impede que dentro da nossa casa possamos ter paz. Eu também quero paz, António. Vai, vai-te embora. (António sai)

ALEXANDRA
Era muitas vezes assim. Ela mandava-o embora e ele obedecia-lhe com exactidão. Era muitas vezes assim. Só ela o sabia aquietar, apaziguar, devolver-lhe a mansidão de que ele, originariamente, também tinha sido feito. Ela dizia-lhe:

MARIA
Não te esqueças que logo à noite tenho bolinhos.
ALEXANDRA
E ele esquecia de imediato uma palavra mais ríspida, mais azeda. Não tinham grande conversa um com o outro mas também nunca ninguém os ouviu a desconversar.

MARIA
(Respondendo à máquina maior) Não fui nada muito ríspida, sabes lá tu o que é ser ríspida, gaiata! O António é uma boa alma mas não sabe medir-se. (Séria) Não tem nada a ver. O facto de eu estar nervosa não tem nada a ver. O que me aconteceu....o que me aconteceu...Não quero falar nisso. Mas também, te digo, se este pesadelo apareceu a toda a gente como disse que ia fazer, pior do que eu está o António. O que é que se pode esperar de um pobre coitado como ele?

(Aparece António)

ANTÓNIO
Não consigo...não consigo contar uma história...

MARIA
Não vais começar tudo de novo, pois não?!

ANTÓNIO
Eu queria...

MARIA
Também eu queria...também eu queria muita coisa... (António levanta-se para ir embora) Vais embora?

ANTÓNIO
Eu não consigo...

MARIA
Tu não conseguiste. Mas podes ficar. Quem vai comer os meus bolinhos? Elas gostam de te ver a comer bolinhos. A Alice até diz que tu mostras tudo o que tens lá dentro, és muito sincero.

ANTÓNIO
A Alice?

MARIA
A Alice gosta muito de ti. Todas elas gostam mas com a Alice é devoção... (vai-lhe buscar um banco, António senta-se ao pé da Alice. Maria vai para a zona dos ferros, António começa a assobiar, trauteando uma música para a Alice. Maria fala lá do fundo) Que canção, é essa, rapaz? (António não responde, continua a cantar. Maria aproxima-se da entrada da sala das máquinas) Ela nunca teve um pai verdadeiro. De todas elas é a que mais sente isso. Que conversa é esta? Ai que tontaria, vamos mas é trabalhar...a culpa é tua, vens para aqui com essas coisas que tiras dos teus livros...não sei como é que ainda tens olhos, rapaz...(Para) Elas gostam de te ouvir contar histórias. Fica. Daqui a nada os bolinhos estão quentinhos, a estalar...As pequenas gostam tanto de te ver a mastigar, rapaz.

ANTÓNIO
Não gosto que me chame rapaz. Sou um homem.

MARIA
E és um bonito homem. Fazes-me falar coisas doces, como estas. Eu que nunca fui doce nem soube o que isso era.

ok, respirar, tenho de respirar, preciso de respirar...

-AHHHH! Não é possível, este elevador é um perigo...isto pode dar choque! Pode matar! Carregar em qualquer um destes botões pode dar choque!! Todo o elevador pode dar choque! Não posso tocar em nada senão posso morrer! (a porta fecha-se nas suas costas) Eu vou morrer!!! Não posso sair daqui, não posso tocar em nada, vou ficar aqui, e se ninguém me tirar daqui, se ninguém chamar o elevador, vou ficar aqui todo o dia. E se os cabos do elevador não aguentarem o peso ou estiveram também avariados e o elevador cair, ai meu Deus!!! Ai o elevador vai cair e eu vou encontrar o meu fim na lavandaria, e aí vai ser aquela mulher que me vai encontrar morta no meio destes destroços…….não posso acreditar que eu vou acabar assim…….OK, respirar, tenho de respirar, preciso de respirar........O elevador não vai cair, não pode cair, eu sei que não vai cair. O telemóvel, posso sempre usar o telemóvel. (pega no telemovel, liga-o e marca o pin) Ora onze é igual a um mais um que são dois, dois mais 9 são 11 onze mais 11 são 22, hoje é dia 22……….dois mais 2 são quatro….. logo eles vão fazer um atentado hoje!!!!!! Faz exactamente quatro meses e 11 dias do onze de Março em Espanha, hoje vai ser em Portugal e claro com esta historia toda do rock in rio, do super bock, do euro e tudo isso, eu sabia... eles vão atacar-nos, mas como, será que eles puseram alguma bomba????? Ou alguma coisa na água????? Meu Deus, virgem santíssima, por todos os anjos e santos uma ameaça química, o antrax, eles fizeram atentados com antrax nos USA……aHHHHHHHH com cartas, eles puseram antrax nas cartas do correio!!!!!!Aquela carta que eu recebi hoje, eu bem achei estranho, eu nunca tinha ouvido falar deles, não pode ser não acredito eu estou contaminado com antrax!!!!!! Eles puseram antrax nas cartas do correio!!!! Estamos todos contaminados, nós vamos todos morrer, o antrax já está a fazer efeito, já sinto a falta de ar, estou a ficar com falta de ar, eu quero sair deste elevador!!!!! eu vou sufocar aqui dentro, por favor algum tire-me daqui de dentro, nos vamos todos morrer, eles vão matar-nos a todos….eu não quero morrer assim…..eu quero sair de dentro deste maldito elevador, por favor tirem-me daqui….

Aterrorizado

O seu tempo está a esgotar-se...

Não sabia.
Nunca soube. Se soubesse que iria ser assim teria pensado duas vezes.
Tudo começou há um ano atrás.
Era uma mulher normal, com uma vida normal, recheada das coisas a que normalmente uma mulher tem direito.
Os primeiros sinais manifestaram-se sem deixarem antever o buraco escuro onde eu iria tropeçar: as ideias começaram a esvair-se no primeiro fôlego, a motivação contida em mim não encontrava objecto, os meus gestos não alcançavam a distância certa, não articulava as palavras que queria nem as colocava no lugar certo da frase.
Algo se passava.
E estava a tomar conta de mim.
E a enlouquecer-me.
Foi então que o procurei.
Talvez não o tenha verdadeiramente procurado, mas é assim que eu sinto que as coisas se passaram. Na forma e na maneira como passei a viver a minha vida. Nessa estranha pulsão para resgatar o desperdício que tinha sido a vida daqueles que me antecederam.
Era como se os meus gestos, os meus pensamentos, os meus actos, estivessem todos marcados por esse desígnio. Nunca fui muito dada nem ao esoterismo nem à religiosidade. Pelo contrário, se havia algo que me podiam apontar era esse apego ao chão firme debaixo dos meus passos.
O que eu sentia era que temos de fazer contas com esta vida que levamos. Que tem de haver contrapartidas para a vida. Para este impulso de ir de um ponto ao outro, sendo que ao primeiro chamamos passado e ao segundo, futuro. Eu não precisei de encontrar-me face a face com ele para perceber que não é por acaso que vivemos a vida que levamos. E que nem será por fortuito acto que a resgataremos.

Num lugar onde sabia que todas as tardes ele iria ver o deambular errante das pessoas, uma esplanada numa zona movimentada da cidade. Do fundo da rua situei-o, estava sentado debaixo de um chapéu-de-sol às riscas que travava os raios a pique; aproximei-me pela sua retaguarda, preparando-me psicologicamente para a abordagem. Como se estivesse à minha espera, indicou-me a cadeira à sua frente. Sentei-me algo intimidada e com o nervoso comecei logo a falar muito depressa:
“O que me trouxe aqui...” – Ele interrompeu-me, dando-me razão.
“- Há quantas gerações os membros da sua família ocupam cargos de exposição pública? Quantos viveram amores intensos? Quantos têm histórias empolgantes para contar? E quantos se esgotam nos próprios conhecimentos?”
Só consegui experimentar um ar de incredulidade. Como é que ele me adivinhou a árvore genealógica em 5 minutos? Não sei.
“Pelos meus cálculos, o seu tempo está a esgotar-se.”
Perguntei-lhe prontamente se ia morrer. “Não vai morrer, mas sentirá a vida como uma morte.” “Como uma morte”, respondi eu apavorada. “Como se estivesse ferida de morte”, disse ele. Propôs-me um acordo.
Retirou um documento, com as pontas a desfazerem-se, de uma pasta esgaçada de cabedal. Colocou-mo à frente:
“Contrato para resgatar o tempo que é seu por direito. Deverá andar pela vida de cabeça descoberta e ser testemunha e parte dessa responsabilidade de cada um viver do melhor modo o tempo que lhe é dado.”
Não o olhei. Não se deve olhá-lo. Ouvi-lo é possível e por vezes, dizem os próprios anjos, é desejável. Olhá-lo não. Olhá-lo é estar muito perto do fogo e não há coisa mais inflamável que a humana condição. Não o olhei. Ele estendeu-me a mão e lá dentro tinha uma ampulheta que me entregou. Disse:
“- Quando à sua passagem, e por causa dela, os seus semelhantes deixarem de desperdiçar a vida que têm para viver, esse tempo entrará directamente na sua conta corrente.” Estendeu-me uma caneta. Sem pensar duas vezes, rabisquei o papel. Ele olhou para o relógio, vestiu aquele ar de coelho da Alice, sempre atrasado para chegar a algum lugar evaporou-se, não no ar, mas depois de ter
contornado a esquina.

Laura

um pedaço de mim, para sempre!

Percebi que não saberia responder à pergunta de uma forma fácil e rápida. Sinto que, aconchegado em mim, também te questionaste… Estaria a imaginar? Nem eu sei bem o que esperar de mim… olho para esta minha barriga, tão redonda, tão perfeita, e vejo-te pequeno, reguila, brincalhão… a correr de um lado para o outro. Feliz. Acho que podem esperar que eu te faça feliz, todos os dias. E que te abrace, e que te beije. A pergunta parece empurrar-me para um muro alto, intransponível, onde não posso fugir à resposta. E eu não consigo responder sem pensar ou falar de ti. Isto se calhar porque o que se poderá esperar de mim sejas tu. Uma nova vida, uma nova força. Um pequeno vulcão pronto a lançar o fogo que destrói mas que, com o tempo, transforma. É como se tu próprio fosses a resposta. Arrisquei continuar a acreditar que sobreviveria à formação desse vulcão. E ainda acredito. É como se tu próprio fosses a resposta. É a vida que em ti, por ti, responde. É como as árvores, as flores, o vento, os rios, os mares. Quem pode justificar a sua existência senão a vida, este dinamismo que indiferente aos cataclismos e tempestades continua a unir o momento que passou ao momento que virá? Está quase a chegar a altura de comprovares por ti mesmo que esta ciência da vida, este riso da natureza e do humano existe. Está quase. Não tarda nada estarás aqui, comigo e com o mundo. Prometo que te ensinarei a nadar. Voltarás assim à água em que, em mim, foste feito. Agora percebo o brilho que se me abeira aos olhos quando falo de ti. És já vida: minha, tua, nossa. É tão estranho, e também tão lindo, dizer isto. És no fundo o que eles podem esperar de mim. És tu a resposta a todas as minhas perguntas. Um pedaço de céu, mar, vento, terra… um pedaço de mim. Para sempre.

Mariana

Eu amo a música...

Hoje acordei como em qualquer outro dia....abrir a janela, olhei para o relógio...6h40.. Sempre gostei de acordar cedo, de me ir adaptando a mais um dia e de ir escorregando de música em música e de costume em costume... parei o cd e comecei a ouvir a rádio e a me perder entre os sons da rua, da minha vizinha de cima, da música e do meu próprio comportamento...Tudo isto era habitual...mas não encaro a rotina com qualquer negativismo...ela organiza...ela organiza-me...Por volta das 9 horas, o carteiro, desengonçado e perdido no seu saco hoje mais enorme do que em qualquer outro dia, tocou á porta e disse apressadamente: aviso nacional importantíssimo! Apela-se á solidariedade e nacionalismo da todos! ...De modo tranquilo, dirigi-me para o meu sofá, sentei-me...parei...porquê? porquê aquele aparato? O mistério seria resolvido... abri a carta, um envelope selado pequeno, com uma folhinha aparentemente insignificante...mas em letras garrafais, logo na primeira linha dizia : o que se pode esperar de si??? O que se pode esperar de mim?? pensei... Música! Música! Talvez possa soar-vos estranha esta minha determinação mas ela é a consequência natural do que tem sido a minha vida. Ainda hoje ouço lá ao fundo o som do saxofone do meu pai... Nunca me esqueci de ti, paizinho mesmo quando foste embora, quando foste e nunca mais... Continuei a ler a carta...apelava à mobilização de todos, cada um dando o seu melhor, para enfrentar uma crise económica e de valores que o país atravessava. Todo aquele texto não era para mim novidade...A minha vida sempre teve um fio condutor, um objectivo...as pessoas são o que são pelo que fazem...e eu sempre quis fazer Arte! Arte! marcar o mundo com as cores de um pincel, com as palavras de um texto...ou fundamentalmente pela grandiosidade da união entre sete notas musicais...só as acções, só os gestos marcam de algum modo a nossa presença...só eles permanecem no tempo...Eu amo a música...cada som, cada fonema, cada combinação...cada um tem um real significado...lembram-me um minuto, uma emoção...enchem e organizam o meu pensamento...fazem com que a minha vida seja uma pauta metódica, rítmica, colorida
- Coitado! Faz-me lembrar aquele pobre diabo que andava na notre dame. É este o efeito terrível que a ausência da acalmia da música, provoca no desenvolvimento de uma alma. Apenas sete notas musicais e tantas combinações...tantos bons exemplos para seguir ...
Ouve! Ouve! Esquece tudo e ouve...esta música, aquela...sente! perde-te nas palavras, encontra-te nas sonoridades !

Maria Alexandra

Há um locar ao qual eu volto sempre - a árvore

Chamo-me Méan o meu outro nome acompanha as mudanças da tão próxima de mim Natureza. Existo desde sempre, pelo menos não me lembro de quando tudo começou. Estou, consigo estar em todo lado. Sou um pouco de tudo, um pouco de todos os que observo, imito ou brinco diariamente.

Há um local ao qual eu volto sempre. A árvore. Ela sempre esteve ali comigo, faz parte de mim assim como eu faço parto dela, respiramos as duas em uníssono. Reparo que estão todos um pouco perturbados, todos procuram: uns com as mãos na cabeça, outros com os olhos virados para o céu à espera de uma resposta.

Às vezes são demasiado estranhos. Não conseguem perceber que o mais simples da vida, o que é mais parecido com eles, e o que faz parte dos mesmos é a Natureza, são as árvores, as flores, as nuvens, o vento.

Estão quase sempre inconscientes pois não vêem que se estão a perder aos bocadinhos e eu não sei o que pode acontecer se se perderem mesmo…. Desapareço com eles, fico sozinha. É esta única coisa que me ensombra em que tento não pensar mas que de vez em quando se depara à minha frente…

Méan

como tudo começou...

Que esperar de nós?
...vive de um múltiplo desafio: ser o pimeiro trabalho de um grupo de teatro na Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian de Lisboa e ser uma proposta de animação e utilização do espaço escolar. Assumimos desde o princípio que a ideia de criar um grupo de teatro teria de ser algo que fosse crescendo, conquistando os próprios meios para seguir o seu percurso de experiências. Por isso mesmo resolvemos utilizar os espaços da escola. na verdade, todos nós, de uma forma ou de outra, utilizadores e frequentadores desse mesmo espaço, também queríamos conhecer uma escola diferente. Até onde poderia ela ir, até onde poderia ela ir na sugestão de histórias?

Começamos de várias formas e muitas delas fizeram-nos voltar á estaca zero. O movimento começou a sair do sítio quando perguntámos a cada espaço, o que ele nos poderia contar. foi assim que a biblioteca e a máquina de fotocópias nos contaram a história de um Quasímodo Autista, ou que a lavandaria nos levou até Maria, ou que a árvore nos levou até Méan, uma alegoria do confronto entre a natureza e a cultura, que o elevador nos trouxe o Aterrorizado. Neste rasto entre personagens outros vieram pelo seu próprio pé, como a Pintora que insiste em colocar cor, cores, todas as cores, no mundo, no seu mundo, a Mulher de Esperanças, ou , a Maria Alexandra. Uma outra personagem acabou por ditar o desenlace deste trabalho: trata-se de alguém, uma mulher, que teve de resgatar o tempo que antes de si os seus antecessores viveram a mais.

E é assim que acaba por ditar o destino de todos eles ao abrir a condição ética, a da responsabilidade: o tempo que temos de viver é um tempo que devemos a todos, ao mundo em que vivemos e dessa forma - recuperando a ideia da barca vicentina - no auto da barca do inferno, os personagens vão ser interpelados e justificar o interesse e a necessidade que continuem a viver.

E se é isto, a história de todos estes personagens quando confrontados com a necessidade de terem de justificar - não já o direito ao paraíso como nos auto de Gil vicente - a sua própria condição de vida. Que esperar de nós? é também uma história de amor, entre Quasímodo Autista e Maria, a Lavadeira, história de amor que vos confidenciamos e segredamos, na esperança de que o teatro seja isso mesmo, um segredo que de boca em boca vai abrindo o caminho.
jpn