Andamento

Monday, March 20, 2006

Aqueles dias

Ser teatro.Fazer teatro. O ecoar das nossas vozes a criar ressonâncias.de emoção.

Primeiro, o choque. Quando entrámos naquele auditório, o palco adiante, as cadeiras alinhadas, uma cabine de som/luz, muitas ripas de madeira a ranger como nos verdadeiros teatros, sentimos que estávamos perante o maior desafio do grupo. Ficámos sem subterfúgios, sem possibilidades de fuga, desprovidos de todo o suporte que a escola nos assegurava.

O abismo estava ao virar da esquina. Resolvemos saltar.

A luz, o desenho luminoso do espectáculo. As palavras começaram a brilhar de uma outra forma, desde o instante em que o personagem irrompia cheio da sua luz pela escuridão daquele teatro vazio.
O som, a sonoplastia do Filipe. O trabalho de encher o vazio, o tempo morto. Som de gato, o barulho estridente das ruas, a tensão contida no toc-toc das portas, anunciar um andamento diferente da história. Som. Caracterizar os diversos ambientes, dar consistência a alguns momentos, suportar o imaginário do espectador. O miau delicioso do gato.
A casa do Sr.Alfredo. Uma carpete catita com cornucópias, uma cadeira que acomodava todo o peso da velhice, a luz espartilhada – o candeeiro a fazer sombras em filigrana nas paredes, a moldura do casamento de outrem e a janela roubada ao lixo, prendiam o Sr. Alfredo à sua condição de velho, detinham-no nessa impossibilidade de fuga para o encontro. A casa tornara-se a casa e nós começámos a acreditar que já seria possível contar a nossa história.

Tínhamos casa, rua, janela, gato, luz, som. O Sr.Alfredo, a Alice, a Matilde, a Sofia, a Júlia, a Deolinda, a Eugénia estavam presentes....

A hora do espectáculo aproximava-se e o nosso burburinho começava a afirmar-se com maior força. Já não era possível aquietarmo-nos. A personagem ansiava a sua vida. As últimas apalpadelas ao texto, enfim, as pessoas começaram a entrar, a plateia começou a assumir o seu papel nesta peça, naquilo que o texto propunha. Apagaram-se as luzes.

Uns riram. Outros anuíram. Outros ainda não ouviram.

Foram 3 espectáculos distintos na relação que se estabeleceu com o público, na forma como nos entregámos ao texto, naquilo que nos uniu em palco nos diferentes momentos. A plateia respirou o texto de forma distinta. Os mais entusiastas, tornaram o riso cúmplice da história. Um bálsamo para nós, que desmoronávamos a cada palavra, a cada gesto, a cada olhar. O outro público, de uma outra idade, interiorizou um diferente “texto” desta peça. Comprometeram-se com o espectáculo de uma outra forma, não lhes bastou tocar na superfície do que emergia no palco, na plateia. Tinham que olhar para dentro, quando acompanhavam o que se vivia à sua frente.

“Acredito em tudo quanto parece impossível” (Félix Ventura)

Este intrépido vendedor de passados, o autor desta frase, segredou-me o que se veio a passar em cima do palco, naqueles dois dias. Parecia-me, parecia-nos a todos que seria impossível brincarmos com a vida ao fazer ranger a madeira daquele tablado. Por isso acreditámos. Afigurava-se uma loucura desmedida vestir o tempo e o universo da outra idade. Por isso acreditámos. Considerávamos um perfeito delírio, sermos mais verdadeiros e reais enquanto personagens, do que na nossa vida quotidiana. Por isso acreditámos. Acreditámos no impossível, construímos o possível. Fizemos teatro.

Sim. Acreditámos no impossível, construímos o possível. Fazemos teatro.

Não sabemos o que nos reserva os tempos que se avizinham. Bons tempos, maus tempos. Algumas curvas, outras rectas. Mais impossíveis, seguramente.
O impossível possível marca a história breve deste grupo. Ficam as palavras emocionadas de um grupo de pessoas que nos últimos dois anos experimentou tocar num outro si, que vem respondendo em diferentes momentos, ao que é possível esperar de nós.

“Representar não é a realidade – é mais cruel do que a realidade. É um acto de crueldade que o actor inflige a si mesmo. Essa crueldade tem a ver com a lucidez e isso é algo de muito temível” (Jeanne Moreau)

Sentir o risco e mergulhar. É só isso que propomos.

Saturday, March 18, 2006

O gato de Alice

Durante tempo não consegui dizer nada sobre o que sentia. Desde que a Alice me deixou que fiquei do avesso no quotidiano a tentar concretizá-la atrás das esquinas da casa, quando se aproximava intempestiva e segura, a preocupar-se com um gato malhado que nunca vi.
Hoje a ouvir a banda sonora de Alice, um filme de Marco Martins. Uma outra Alice recordou-me da Alice. A que já fui? A que serei?
A Alice era eu e não era eu. A Alice morava em mim como o meu futuro. Como a minha vida que vai acontecer. Tornar-me-ei na Alice e sei-o desde que ela me abandonou. Como pode alguém inventar alguém em quem eu me tornarei? Quer dizer que se somos invenções perpétuas das mãos dos outros, o que somos sozinhos debaixo da lua? Pó? Pó cansado e desdito? Coisa nenhuma de nenhum lugar? Em noites frias, com uma dimensão azul de cidade grande, quando todos os outros já dormem e sonham, as suas frases aguentam-se nos segundos, impossível fugir ao eco. Sou apenas uma vida de pedra dos lugares no sono dormido de todos.Quando acordo ela pergunta-me se o sonho é estranho e se as pessoas dos países por onde andaste te reconhecem como Homem. Ela não acha o sonho estranho. As verdades dela vão-nos vestindo como cascas.“É como se a partir de certa altura as coisas que fazemos parecessem tanto que são escolhas nossas que não podemos fazê-lo de maneira diferente?”Terei uma vaga ideia da vida então.A Alice vai voltar eu sei. Até sei quando ela vai voltar. Aí serei eu ela e ela eu.E o palco será um mundo debaixo dos nossos pés.“Fica bonito quando foge.” O palco. E quando volta. O palco e o amor de Alice.

Thursday, March 16, 2006

a espera...

Desde agosto passado que parte da minha vida se resume a uma emensa espera...espero que os dias passem...que os meses corram...Por outro lado, não quero não aproveitar estes derradeiros dias este sítio que é a "casa" calorosa do nosso andamento
neste ambiguidade, ontem também esperava ouvir o que ninguém queria...
liguei o telefone e expliquei "...sabe é que já estamos muito ansiosos... e queriamos saber..."
do outro lado, a voz masculina de tom decidido respondeu: sim, sim foram seleccionados.
FOMOS SELECCIONADOS!
adoro esperar por boas notícias!!!entre os risos e a alegria partilha, recordo a frase da nossa entusiasmada directora: são o melhor grupo de teatro do mundo...
podemos não sê-lo de todo...mas somos sem dúvida o melhor grupo do "meu mundo"...
lá estaremos nós no FATAL, entre 9 e 21 de Maio...

Saturday, March 04, 2006

novamente em andamento

estava em pulgas para puder escrever aqui...
estamos tão desactualizados...
desde a reposição do "que esperar de nós?" que já acrescentamos umas novas páginas á nossa história...
nestas semanas em que infelizmente não tenho indo aos ensaios sinto-me ainda mais abençoada pelo que eles me dão...
"O Gato" foi o nosso segundo projecto mais a sério...recordo o dia de outubro em que estava doente e que pela primeira vez pisamos um palco...naquele dia do ensaio tudo pareceia perder intensidade, foi um desastre!depois o tapate da Pipa lá nos salvou...lembro-me da estreia, lembro-me dos risos do público e das lágrimas de emoção no fim...recordo ainda as outras sessões e a famosa velhinha que disse aue também queria ter um vizinho com um gato...e lembro-me com muita, muita saudade nos momentos em que ficava atrás do palco a ver o fim da peça e quase, quase chorava ao ver a alice e o alfredo...
ainda esperamos pela resposta do FATAL, mas só voltar novamente aquele espaço foi muito, muito bom...tão bom como ver novos pés a dar um novo andamento...